O último bom dia
Todo dia é igual. Ligo meu computador e duas mensagens me aguardam. Uma é do David, um fotógrafo ucraniano conhecido que se tornou meu amigo depois que organizei seu workshop em Londres em 2019. A outra é do Nicola, um adorável italiano baixinho e atarracado da Puglia, que me ajudou a conseguir minha cidadania italiana anos atrás e também se tornou um bom amigo.
David e Nicola não têm nada em comum, exceto que ambos me enviam uma mensagem diária. As mensagens de David são incrivelmente diversas. Um dia, ele manda uma foto dos bastidores de um ensaio, no outro uma foto de uma modelo linda, depois imagens de um prédio em chamas perto de sua casa sendo atacado por vizinhos russos. Ele também compartilha vídeos de suas viagens de bicicleta ou moto, orgulhoso das paisagens deslumbrantes de sua amada Ucrânia
As mensagens do Nicola são o oposto: todo dia, uma foto de café em baixa resolução, um GIF de 1997, ou uma mesa de café da manhã, acompanhada apenas pela palavra “Buongiorno”. Não há variação no assunto da linha, e ele nunca repete a mesma imagem. As imagens são sempre diferentes, de baixa qualidade e bregas, mas o “Buongiorno” diário se tornou uma certeza na minha vida.
Eu me tornei dependente dessas mensagens. Elas eram tão confiáveis quanto o nascer do sol, as estrelas e a lua. Elas me davam um empurrãozinho positivo para começar o dia.
Tanto que às vezes eu me preocupava, egoisticamente, com a possibilidade de perder uma delas. Enquanto David é um jovem, nem um ano mais velho que eu, Nicola provavelmente está beirando os 70 anos, e a vida tende a levar as pessoas embora à medida que envelhecem.
Então, é claro, aconteceu.
Uma manhã, em vez de duas mensagens, havia apenas uma. O “Buongiorno” do Nicola.
A última mensagem do David foi um clipe de uma viagem de moto ao pôr do sol. Nas redes sociais, descobri que o curto vídeo que me mandou foi sua última viagem. David bateu sua moto na Ucrânia e morreu.
Fiquei com um vazio estranho. Minha única conexão com o David era o David. Não conheço nenhum de seus amigos ou família. Esse foi o fim do David.
Já se passaram alguns meses, e às vezes ainda revisito nossa conversa para olhar sua última mensagem. Ele estava feliz, cheio de vida, fazendo o que amava.
O vazio retorna.
Mas então, uma notificação surge. É da Itália. É o Nicola.
Buongiorno, Nicola.
Rodrigo Bressane
Paris, France
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Sinto muito.
Sinto muito, Bress. A gente vive como se eternos fôssemos, mas não somos. Essas perdas mostram nossa finitude e nossa ignorância do amanhã. Bem vivem os budistas que cultuam o agora. Um beijo pra você.